somente 11% das cidades de São Paulo divulgam dados completos

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A subnotificação de dados sobre a covid-19 piorou na segunda vaga da pandemia graças à troca de prefeitos neste ano e ao pânico de novas restrições sanitárias. A desenlace é da Info Tracker, uma plataforma criada pelas universidades paulistas USP e Unesp para monitorar a crise.

Desde o dia 26 de março, o projeto recolhe as informações diárias divulgadas por 92 municípios paulistas, escolhidos por representarem 88% dos óbitos por covid-19 no estado.

Segundo o levantamento feito a pedido do UOL, a maioria das prefeituras deixaram de publicar os dados regularmente e, quando o fazem, publicam somente secção dos oito indicadores necessários para dimensionar a crise: casos notificados, suspeitos, confirmados, descartados, internados, óbitos, óbitos investigados e curados.

Das 92 cidades, dez preenchem os oito indicadores (11%) e só quatro divulgam suas informações atualizadas diariamente desde o início da pandemia. Unicamente “casos confirmados” e “óbitos” estão nos boletins epidemiológicos de todos os municípios.

Uma das coordenadoras do Info Tracker, a pesquisadora e matemática da Unesp Marilaine Colnago aponta duas razões para o fenômeno: “a mudança na gestão municipal e o pânico de novas restrições sanitárias por secção do governo estadual”.

Em agosto de 2020, no primeiro pico da pandemia, 39 cidades atualizavam os dados diariamente. Em janeiro, foram 23.

Veja algumas das cidades com mais inconsistências, segundo a Info Tracker:

Campinas: Desde outubro, o município parou de atualizar o boletim aos finais de semana e, a partir de 21 de janeiro, passou a informar somente os casos confirmados, óbitos e internados de segunda a quinta. Unicamente na sexta divulgam o boletim completo.

O que diz o município? A cidade “trabalha diariamente com óbitos e número de casos”, afirmou ao UOL Valéria Almeida, epidemiologista da Secretaria Municipal de Saúde. “No final da semana publicamos um boletim com o compilado da semana, e no término do mês com o boletim mensal.”

“Estamos trabalhando com os dados que têm influência epidemiológica”, afirma. “Estamos divulgando muito mais hoje.”

Mauá: Depois da mudança de gestão, retirou os casos notificados, suspeitos e óbitos em investigação. Em janeiro, publicou boletim em somente 14 dias.

O que diz o município? O UOL encontrou em contato com a prefeitura, que não respondeu as questões até o fechamento da reportagem.

Osasco: Não informa casos notificados, suspeitos, descartados, internados investigados e curados. Atualizou somente quatro vezes em 2021: nos dias 3, 11, 21 e 25.

O que diz o município? “Ao contrário de publicar diariamente, o município optou por fazê-lo uma vez na semana, sem reduzir a vigilância e sempre realizando campanhas de incentivo ao uso de máscara, álcool em gel e que se evite aglomerações”, diz em nota. “Não há uma vez que esconder as informações porque diariamente elas são atualizadas nos painéis oficiais do governo do estado e do governo federalista.”

Poá: Desde o início da pandemia, divulgou os dados em metade dos dias (51%). Desde junho, não divulga casos suspeitos, internados e investigados. Antes publicados no site da prefeitura, agora os dados são informados em uma página no Facebook com somente 115 seguidores.

O que diz o município? A Secretaria de Saúde afirma que, “com a troca de gestão, todos os setores necessitaram de um período para se adequar”, mas que voltou a publicar o boletim diariamente pela página no Facebook direcionada por meio de um banner no site da prefeitura.

Jacareí: “Há sempre inconsistência nos dados” do município, diz a pesquisadora. “Toda semana volta detrás com os dados e a culpa é sempre do e-SUS”, plataforma do dedo preenchida pelas cidades com dados da saúde municipal. Quando publica, a cidade deixa de informar os casos em investigação.

O que diz o município: O UOL encontrou em contato com a prefeitura, que não respondeu as questões até o fechamento da reportagem.

Por que os dados são tão importantes?

Cada um dos indicadores é importante porque torna provável gerar estatísticas e predições sobre a pandemia, auxiliando o poder público a tomar decisões embasadas na ciência
Marilaine Colnago, pesquisadora e matemática da Unesp e Info Track

Procurada para comentar a urgência dos dados, a Secretaria Estadual de Saúde não respondeu até a publicação deste texto. Mal o fizer, a resposta será incluída.

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