Sequelas da crise pesam na bolsa | Finanças

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Quase um ano depois o progressão do coronavírus deflagrar a pior crise global em décadas, a maioria das ações no Ibovespa ainda acumula perdas. Embora o Ibovespa mostre uma subida de 5% no período e tenha, inclusive, marcado novos recordes históricos, tapume de 64% dos papéis que compõem o índice seguem aquém dos níveis pré-crise. E são justamente os setores mais dependentes da retomada da atividade – uma vez que shoppings, companhias aéreas e até bancos – os mais prejudicados diante da lenta recuperação econômica e das incertezas sobre o processo de vacinação.

De convénio com levantamento do Valor Data, exclusivamente 29 das 81 ações do Ibovespa voltaram a subir, enquanto 52 acumulam perdas desde a Quarta-feira de Cinzas do ano pretérito, dia 26 de fevereiro, quando os mercados brasileiros sentiram com força o impacto da crise global. Foi nesse pregão que o Ibovespa fechou em baixa de 7%, seguindo as duras perdas nos mercados americanos, o que se desdobrou, mais tarde, numa sequência de “circuit breakers” (interrupção das negociações quando a queda atinge 10%) em março.

De lá para cá, o índice brasílico não exclusivamente se recuperou dos piores momentos da crise uma vez que até marcou novidade máxima histórica, aos 125 milénio pontos, no primícias de 2021. O movimento positivo, entretanto, é sustentado por uma parcela ainda restrita de companhias, com destaque para varejistas de transacção eletrônico – uma vez que consequência das mudanças de hábito de consumo trazidas pela pandemia – e ações ligadas a commodities. O desempenho desse último grupo, que reage à perspectiva de retomada da economia mundial com o progressão da vacinação e oferta de mais incitação pelas grandes economias, confirma que é do exterior que vem boa secção do motor de recuperação da bolsa brasileira.

Para se ter uma teoria do peso das companhias ligadas a matérias-primas, o valor de mercado desse grupo – constituído por 15 empresas – sobe 33,39%, a R$ 1,27 trilhão, muito supra da subida do valor de mercado do Ibovespa, de 5,83%, desde o estouro da crise. Não fossem essas ações, o valor de mercado do Ibovespa teria tido uma queda de 2,82%, a R$ 2,95 trilhões.

Na lista das maiores perdas, os destaques são de Cogna ON (-62%), Embraer ON (-48%) e BR Malls (-47%), que representam muito a dinâmica negativa para setores de ensino, aviação e shoppings. Cá vale uma salvaguarda: o pior desempenho no ranking é da empresa de resseguros IRB ON (-77%), que sofreu mais por fatores próprios do que o efeito da pandemia.

Uma viradela em segmentos mais sensíveis ao ciclo doméstico ainda exige paciência, embora os papéis continuem no radar e alguns sejam considerados até baratos.

Mesmo os setores que têm mostrado resiliência durante a pandemia acabam sofrendo o peso das incertezas macroeconômicas, que vão desde o ritmo de retomada até a situação fiscal. “Construção social é um ótimo exemplo de setor que mostrou resiliência e as operações não foram afetadas no pequeno prazo. A demanda segue firme e as vendas continuam. Mas a situação econômica coloca em xeque o cenário positivo”, afirma Daniel Utsch, gestor de renda variável da Fator Governo de Recursos.

Para ele, a covid-19 trouxe uma crise econômica global de curtíssimo prazo. “Mas, no caso específico do Brasil, todo mundo está olhando desdobramentos de pequeno prazo da crise que podem afetar a tese de longo prazo.”

Para Aline Cardoso, gestora de portfólio na EQI Asset, o mercado ainda está em um período de transição e exige mais transparência para destravar o valor das ações. “A vacinação começou, mas restam dúvidas sobre o ritmo de imunização, segunda vaga e o surgimento de novas cepas. Por isso, as ações cíclicas domésticas ainda não engrenaram. A gente ainda tem muito uma dinâmica do ‘fique em lar’ porque é um ano de transição e o resultado das empresas ainda vai ser ruim neste primícias de ano”, diz.

Ela explica que os balanços das empresas devem mostrar um ímpeto melhor de propagação de lucro e receita a partir dos dados do primeiro trimestre – o que vai ajudar os resultados do período é a fraca base de confrontação com março de 2020, mês que marcou a piora da crise. “O tema do primeiro semestre ainda vai ser commodities e tecnologia. Depois devemos ver uma recuperação das ações mais cíclicas.”

Neste momento, a pressão é ainda maior em setores que viram seus negócios paralisados durante a pandemia, uma vez que de shoppings, companhias aéreas e de turismo. Entre as dez maiores perdas do Ibovespa desde o Carnaval pretérito, três são de administradoras de shoppings: Multiplan ON cede 35%, Iguatemi ON cai 36% e BR Malls ON perde 47%.

Para Marcela Morais, gestora de portfólio da ARX, a pandemia levantou questionamentos estruturais sobre as empresas, um pouco que se reflete no preço das ações. Ainda há incerteza se as pessoas vão voltar em peso aos shoppings depois de verem as comodidades do e-commerce. “Hoje, eu vejo mais oportunidades em varejistas do que as ações de shoppings, porque elas têm mais flexibilidade. Os shoppings estão muito descontados, mas não está evidente o que vão fazer para manter os lojistas e aumentar a receita de condomínio e aluguel”, explica a gestora.

Aline, da EQI, também vê oportunidades em varejistas e alguns nomes da construção social, embora siga com uma carteira muito equilibrada entre tecnologia e empresas de “valor”, ou seja, descontadas. Já Utsch, da Fator, elenca oportunidades em construção social, telecomunicações, varejistas e redes de restaurantes, mas também continua carregando commodities e e-commerce na carteira.

Os questionamentos sobre fatores estruturais se aplicam, inclusive, aos bancos devido à competição com as fintechs e ao setor de ensino com a chegada de novas tecnologias. “De uma forma generalizada, os setores cíclicos que mais sofrem são aqueles que dependem mais do presencial e também tiveram indagações sobre fatores estruturais”, acrescenta Marcela, da ARX, que dá bastante valor ao “stock picking” neste momento.

Dentre os grandes bancos no Ibovespa, Itaú Unibanco PN cai 14% desde a piora da crise na bolsa, enquanto Bradesco ON perde 14% e Bradesco PN cede 10%. Já Banco do Brasil ON tem perda de 30%. O setor de ensino vê baixa de 62% em Cogna ON e perda de 40% em Yduqs ON.

Para um gestor que preferiu não ser identificado, são justamente essas questões mais estruturais que devem exigir um prêmio das ações no mercado. “A pandemia expôs pontos de atenção que a gente nem sabia que estavam lá ou que esperávamos nos focar só daqui a alguns anos. Por isso, ainda é difícil entrar de peito destapado em bancos tradicionais, shoppings e ensino. Vai melhorar com o tempo e tem potencial de subida, mas esse tipo de incerteza vai cobrar um preço e paciência”, acrescenta.

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