O trajectória estrutural do mundo das finanças em direção à digitalização – Roberto Moraes

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Por conta de minhas investigações mais recentes, eu tenho comentado com frequência sobre o progresso da tecnologia sobre as nossas vidas. Refletindo um pouco mais, penso que talvez, essa leitura deixe transparecer que esse frisson de técnicas informacionais é que tenham feito surgir a preponderância financeira no capitalismo contemporâneo, mas não é assim. Tentarei explicar.

Antes, lembro que não se deve olvidar que sempre há um razoável tempo entre o surgimento da tecnologia e sua maturação para uso ampliado em vários setores. Entre exposição da novidade tecnologia e o seu uso expandido, o rentismo também foi se ampliando de várias formas.

Assim uma vez que “trepadeiras” (vegetação parasitas) que têm no talo da árvore a sua manancial de sobrevivência. Por equivalência, o rentismo é também derivado de alguma coisa que o sustenta em sua origem. As rendas derivadas da economia real: juros, aluguel, dividendos, comissões, marcas, etc.  

Há séculos há bancos, mercados de capitais e a teoria da partição e democratização da propriedade com a figura da sociedade anônima (SA). Há um século os fundos financeiros também já tinham surgidos, uma vez que forma similar à teoria da poupança e uma vez que instrumento individual de atualização monetária e juros para aglomeração que já tinham a função de servir uma vez que meio coletivo, para produzir a expansão da riqueza, aglomeração e investimentos. Se houver alguma incerteza sobre isso é só relembrar o período do entorno da crise de 29. De crise em crise, entre sobreprodução e sobreacumulação se tem muito a aprender.

Portanto, é um equívoco não somente falar, mas também deixar transparecer qualquer teoria de que a expansão da tecnologia é que seja a gênese da financeirização. E é bom que se diga a sua forma de atuação não mudou muito neste tempo todo. O volta do valor desde a base da pirâmide, a lanço da circulação e vendas das mercadorias até o marchar das altas finanças continua o mesmo, uma vez que nos ensinou Giovanni Arrighi.

Assim, as novas tecnologias e suas formas organizacionais (TIC) aceleraram o tempo da produção e das trocas até o consumo, cada vez mais intermediado pelas infraestruturas de informação das plataformas digitais. Junto estamos vendo a ampliação do setor de serviços, as terceirizações, a precarização retomando a leitura da separação do trabalho junto da restruturação produtiva mundial. 

TIC e plataformas digitais uma vez que meio de produção e de informação

As plataformas digitais essencialmente uma vez que meio de produção (Appficação) e meio de informação (redes sociais), surgiram junto da desregulação e flexibilização e uma vez que sucessão ao Toyotismo. A internet traste dos celulares expandiram e misturaram a produção e a informação instantânea, roubando os tempos mortos numa cronofagia ainda pouco percebida.

Os mercados globalizados deixaram de ser retórica, num mundo em que os produtos saem e chegam em qualquer lugar, desde que se garanta a fluidez do verba untado no trânsito pelas redes informacionais e os novos meios de pagamento.

Assim, chegamos à concentração de empresas com fusões e aquisições em processo de oligopolização e conformação de um volta financeiro global. Desta forma, as Big Techs (EUA e China) se tornaram o maior oligopólio da história da humanidade com tentáculos sobre todos os demais setores da economia em diferentes espaços e nações.

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Figura 1 (PESSANHA, 2020, p. 437). Capítulo 15 “Inovação financeirização e startups uma vez que instrumentos e etapas do capitalismo de plataformas”. Livro: Geografia da Inovação: Território, Redes e Finança, GOMES, Maria Terezinha, TUNES, R. e OLIVEIRA, F. G. 

Essa compressão do espaço e do tempo vem servindo de forma extraordinária à subida do limitado prazo, uma vez que objeto do libido da aglomeração ampliada de capitais. O marchar de cima dos donos dos dinheiros passou a praticar maior controle sobre a sociedade e sobre a política.

Nesta toada vivemos no presente a dominação tecnológica que amplia a preponderância financeira que define o capitalismo contemporâneo. Em seu trajectória, o capitalismo que já foi hegemonicamente mercantil e depois industrial, tem hoje o soberania financeiro, capturando cada vez mais valor, em todas as frações do capital com suporte da tecnologia da informação e da informação (TIC).

Aquilo que antes já existia se ampliou. O progresso da tecnologia, muito para além da maquinaria inicial e mesmo da automação, com a intensificação da TIC, foi permitindo, de forma paulatina e crescente, a constituição de formas e condições para subtrair mais valor do trabalho, da sociedade e do Estado.

Subtração do que eram seus atributos indispensáveis: o monopólio da emissão de moedas e a regulação sobre todos os setores. Hoje, o mercado define a autorregulação e o financiamento uma vez que norma das atividades em boa segmento do mundo, em peculiar, no lado ocidental.

Não por outro motivo, os volume dos fundos de investimentos, imbricados às outras formas de emprego no mercado de capitais e enlaçados ao volta financeiro global, são hoje quase três vezes maior ao PIB global. Não por outros motivos, a bolsa de valores no Brasil chegou a 3 milhões de investidores comprando e vendo ações e cotas nos fundos financeiros. 

Aprofundamento da digitalização das finanças, a falsa utopia da moeda do dedo e novidade rodada do neoliberalismo

O largo mercado de derivativos e os mercados futuros entre outros vão tecendo novos instrumentos com uso de tecnologias. Assim, surgem as moedas digitais, blockchain, tokenização, etc. No meio deste processo, para alguns utópicos e para outros distópicos, há quem imagine que a técnica consiga, qualquer dia, separar a economia da política. Ledo miragem.

Assim, as finanças digitalizadas ampliaram a potência e as estratégias dos donos dos dinheiros, no processo de recolhimento de excedentes das diferentes frações do capital e em todos os territórios a nível global.

Desconfio que nessa tomada de excedentes – numa espécie de vampirismo do dedo – caminhamos para o esgarçamento do sistema. Difícil crer em renovação de um “novo” New Deal (desculpe pela repetição), e novo Welfare-state em que se retoma as ideias keynesianas que deram manifesto há um século, no pós-29 e outros momentos pontuais.

As transformações neste momento parecem mais estruturais. Talvez até de padrões (in) civilizatórios. Wallerstein fundador da teoria de sistema-mundo junto com Arrighi já citado falaram em caos sistêmico que desorganiza aquilo que parecia ajustado ao sistema do pós-guerra e do estado-de-bem-estar. Porém, o predomínio se sente ameaçado e parece querer reafirmar sua preponderância, em meio à desorganização que dá ares de mudar a preponderância

O mundo vem se transformando. Neste momento, o marchar de cima não cogita de um mundo do “estado de bem-estar-social”. Talvez um “estar” de renda mínima espalhada para os sobrantes, para assim, tentar segurar a “patuleia” que fica fora da roda da vida. 

O marchar de cima – dos donos dos dinheiros – se tornou os donos da maioria dos ativos, uma vez que gostam de se referir a tudo que lhes dê retorno rápido, num mundo onde as pessoas, contabilmente, se transformaram em passivos e prejuízos, quando na verdade é quem ainda produz os excedentes, embora tenha suas rendas cada vez mais expropriados.

Vivemos uma nona rodada do neoliberalismo em que os grandes fundos financeiros a nível global (reunidos em Davos) falam no tal “Great Reset” e outras asneiras. Assim, customizam o oração financeiro da sustentabilidade, usando o acrônimo ESG (Environmental, Social and Corporate Governance: governança social e ambiental), que na prática, zero mais é do que a retomada daquela teoria dos stakeholders, em que os investidores teriam preocupações com governança social e ambiental, quando na verdade se vê a ampliação da dominação.

Observando os movimentos contemporâneos do capital com o potente aporte da tecnologia, se identifica que a novidade rodada – ainda mais radical do neoliberalismo – caminha para um ciclo de aglomeração ainda mais perverso. Há um monstro a ser contido, que a despeito de tudo ganhou corpos e mentes nos últimos anos, uma vez que tratam os franceses, Dardot & Laval no livro “A novidade razão do mundo”.

As reações à Super Liga do futebol, organizada pelo banco americano JP Morgan, reunindo os grandes clubes e potentes fundos financeiros globais, parecem mostrar, mesmo que somente simbolicamente, que levante mundo da “utopia tecnocrática e financeira” para poucos, em detrimento da maioria tem limites. A dominação tecnológica e preponderância financeira precisam também ter limites.

Para fechar, sabemos que as questões cá tratadas são estruturais e se situam no campo da economia política – para além das conjunturais -, que se somam à crise dos protótipo de representação política de quase dois séculos no poente.

Foi neste trajectória que chegamos a um estado tomado e sem capacidade de regular e financiar quase zero e a cada dia entrega mais porções ao mercado. Simultaneamente o mercado amplia o controle sobre a sociedade, a política e a economia, se portando ainda mais distante dos interesses da maioria.

Sim, mesmo percebendo que as questões centrais que decorrem destas transformações oriundas da relação entre finanças e tecnologia seriam mais de ordem estrutural e civilizatória, não há uma vez que enfrentá-las sem as intervenções dos estado-nações, para dentro e para fora – interna e externamente. Assim, talvez, seja provável compreender que ações passariam pela retomada do Estado, com a finalidade de atender a maioria da sociedade. Porém, não faria nenhum sentido fazê-lo, sem amplas e profundas reformas no sistema e, nesse risco não faz nenhum sentido querer disjungir a economia da política.

O tema merece ser aprofundado.

Referências:

ARRIGHI, G. O longo Século XX. São Paulo: Contraponto/Unesp, 1996.

ARRIGHI, G. A ilusão do desenvolvimento. Petrópolis, Editora Vozes, 1997.

CHESNAIS, F. O capital portador de juros: aglomeração, internacionalização, efeitos econômicos e políticos. In: CHESNAIS, F. (org.). A finança mundializada: raízes sociais e políticas, feitio, consequências. São Paulo: Boitempo, 2005, p. 35-67.

DARDOT, P.; LAVAL, C. A novidade razão do mundo – Tentativa sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: BoiTempo, 2017.

DOWBOR, L. O capitalismo se desloca: novas arquiteturas sociais. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2020.

HARVEY, D. Exigência pós-moderna. São Paulo: BoiTempo, 2005.

HARVEY, D. A loucura da razão econômica. São Paulo: BoiTempo, 2018.

PESSANHA, Roberto Moraes. Inovação financeirização e startups uma vez que instrumentos e etapas do capitalismo de plataformas (P.433- 468) in: Geografia da Inovação: Território, Redes e Finança, GOMES, Maria Terezinha, TUNES, R. e OLIVEIRA, F. G. Rio de Janeiro. Consequência, 2020.

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