o que está em jogo na ‘economia verdejante’?

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Pós-pandemia: o que está em jogo na ‘economia verdejante’? item de Amyra El Khalili

A cotação da chuva no mercado de futuros de Wall Street, uma vez que se fosse ouro ou petróleo, viola os direitos humanos básicos e torna o elemento líquido vulnerável a uma eventual bolha especulativa

Palavras-chave: Economia verdejante. Problemas socioambientais. Serviços ambientais.

Sumário: 1 Chuva transformada em mercadoria na Bolsa de Novidade Iorque – Referências

Às vésperas da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável – Rio+20 (2012), fomos abordados por uma avalanche vinda dos ativistas internacionais que denunciavam os perigos da economia verdejante, tão propalada pela mídia e pelas grandes ONGs ambientalistas, com a permissão de políticos ideologicamente alinhados, tanto com a direita quanto com a esquerda, neste continente latino-americano-caribenho.

A economia verdejante se apresentou uma vez que uma selecção para solucionar os problemas socioambientais, uma vez que o combate à pobreza, às desigualdades e à degradação ambiental, sendo posta, nas convenções das instituições, uma vez que meta dos Objetivos do Milênio no programa da ONU pelo Banco Mundial, pela Organização dos Estados Americanos (OEA), entre outros, nos mais diversos setores da economia, supostamente admitida (a economia verdejante) uma vez que consenso resultante (era o que diziam) de largo debate com a sociedade, transformando-se, portanto, em vestimenta consumado.

No entanto, a economia verdejante não se limita a incluir as variáveis ambientais no debate político-econômico. Ela vem uma vez que um pacote forjado pelo setor financeiro, arrastando em seu bojo, evidentemente ajustado aos seus interesses, inúmeras iniciativas e propostas que partiram da base excluída dos grandes centros de decisão e das reuniões dessas mesmas instituições, que contaram com uma ilegítima representação de mesmos políticos e seus parceiros nos megaprojetos de infraestruturas responsáveis pelos impactos ambientais nas regiões de onde partiram as propostas dos(as) que desafiam diuturnamente o status quo com seu recta de subsistir.

Importantes propostas discutidas por anos de trabalho junto às mais diversas comunidades que constituíram, por exemplo, os comitês de bacias hidrográficas, uma vez que a “cobrança pelo uso da chuva”, foram postas no mesmo pacote do que chamam “pagamento por serviços ambientais”.

O setor do agronegócio e empresarial utiliza os recursos naturais (chuva, robustez e minério) mediante outorga (licença de exploração) uma vez que insumo para produzir bens e serviços, enquanto a proposta elaborada pelos comitês de bacias hidrográficas, “cobrança pelo uso da chuva”, está sendo incluída nesse pacote financeiro (da economia verdejante), sem a devida explicação do que significa “assinar” um contrato com uma cláusula específica sobre “pagamentos por serviços ambientais” ou mesmo esclarecer o que está implícito quando se utiliza essa frase.

1 Chuva transformada em mercadoria na Bolsa de Novidade Iorque

Em 2020, a chuva começou a ser negociada uma vez que recurso (commodity), tendo uma vez que base o índice Nasdaq Veles California Water (NQH2O) no mercado de futuros de Wall Street, uma vez que acontece com o petróleo e o ouro.

Para explicar o que isso significa e por que isso não deveria sobrevir, o jornalista diretor-fundador da Diálogos do Sul, Paulo Cannabrava Fruto, dialoga comigo para a TV Diálogos do Sul durante a live conduzida pela jornalista Vanessa Martina.

A cotação da chuva no mercado de futuros de Wall Street, uma vez que se fosse ouro ou petróleo, viola os direitos humanos básicos e torna o elemento líquido vulnerável a uma eventual bolha especulativa, denuncia em um transmitido o relator próprio da ONU sobre o recta à chuva potável e saneamento, Pedro Arrojo-Agudo.

Para Emiliano Teran Mantovani, do Observatorio de Ecología Política de Venezuela:

[…] A geração do índice ‘Nasdaq Veles California Water’ em outubro de 2018 por segmento do mencionado CME Group, com a finalidade de colocar um marcador na bolsa de futuros da chuva na Califórnia, tem uma vez que precedente próximo a formação de mercados de futuros que envolveram perversamente os víveres desde 2008, uma vez que aconteceu com o trigo, o cacau e o arroz. Isso faria com que os grandes bancos privados internacionais destinassem enormes cifras para a compra dos referidos títulos, enquanto se especulava com eles, disparando os preços dos víveres e aumentando a quantidade de famintos no mundo.

Desde sempre, a nossa participação no debate sobre instrumentos econômicos e financeiros foi pautada pela didática e por esclarecimentos. Sempre expusemos claramente nas discussões os riscos e as necessidades de progredir na direção de um novo protótipo econômico para a América Latina e o Caribe, com propostas que vinham da base e dos rincões mais distantes dos centros urbanos, enquanto os políticos e lobistas debatiam as suas propostas em fóruns realizados em hotéis de luxo, regados a badalados coquetéis com solidariedade corporativa entre pares.

Valendo-se de conceitos confusos, de posições políticas dúbias, mas com sofisticada engenharia financeira a reverência da equação terreno e bens comuns, os recursos naturais estratégicos engrossaram os negócios da geopolítica internacional (nossa velha conhecida) uma vez que mais um incremento de guerras (muitas vezes promovidas pelos próprios governantes), tudo em resguardo da democracia e da tranquilidade na América Latina, na Ásia, no Oriente Médio, na África.

Essa questão, pelo tanto que é de espinhosa, requer coragem para o devido enfrentamento. Ela nos impõe relembrar a história sangrenta com que foram instaladas as forças políticas na América Latina e no Caribe, o colonialismo, a escravidão. Lastimoso e lastimavelmente, também nos obriga a olhar a situação dos(as) irmãs e irmãos refugiados(as), imagem que incomoda, ocupando quase diariamente os noticiários, assim uma vez que os ocupam de fundamentalistas que se alimentam do ciclo vicioso da indiferença.

A pesquisa investigativa Valoração econômica e pagamento por serviços ambientais – reconhecimento do valor da natureza ou atribuição de preço à devastação da natureza?, da bióloga e ativista Jutta Kill, faz uma estudo acurada e nos dá esclarecimentos fundamentados com argumentos técnico-operacionais (de realização) e jurídicos de uma vez que se deu a implementação desses “experimentos” com base no princípio da economia verdejante nos países do Setentrião e suas consequências tanto lá quanto cá.

Nesse trabalho, fica evidente que estamos diante de um problema de ordem moral e moral mais multíplice e muito distante das falsas soluções que se impõem por força do comodismo da despolitização e da falta de interesse. Esta última é a que tranquilamente assim se justifica: “Se não entendo do objecto, não quero saber”.

Se quisermos transpor do atoleiro em que nossa cultura contemporânea se meteu, é melhor debutar a saber e a entender.

Gente disposta a pesquisar, a esclarecer e a orientar, comprometida com a democratização da informação, não falta nem nunca faltou. Aliás, uma vez que nos labareda a atenção o pesquisador e ativista Carlos A. Lungarzo:

[…] O despertar das mulheres, coincidindo com uma das maiores crises internacionais do capitalismo, pode ser a esperança de uma novidade lanço, desta vez pacífica, que não renuncie à paridade (e, portanto, à desaparição das classes), mas encare os problemas imediatos. Esta seria uma Novíssima Esquerda, ou, melhor, uma segunda tempo da “Novidade Esquerda”. Zero garante seu sucesso, mas sua chance é maior que a dos movimentos violentos que só beneficiam os traficantes de armas, e que produziram milhões de mortos na África, na Ásia e na América Latina.

Não podemos esperar que os grupos que hoje mobilizam dúzias de trilhões de dólares sejam definitivamente derrotados. Até que isso aconteça, se sobrevir, bilhões de crianças, índios, negros, refugiados, mulheres e pobres esperam uma reação das forças esclarecidas deste planeta, que, acreditemos ou não, existem.

Notas:

(1) Chuva transformada em mercadoria na Bolsa de Novidade York. LIVE com o jornalista Paulo Cannabrava e Amyra El Khalili. TV Diálogos do Sul. Transmitido ao vivo em 10 de dez. de 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=RHCN22Wy5B4.

(2) A valoração econômica da natureza tem sido estudada há alguns anos. Nesta novidade publicação pela Instalação Heinrich Böll, Valoração econômica e pagamento por serviços ambientais –reconhecimento do valor da natureza ou atribuição de preço à devastação da natureza?, da bióloga e ativista Jutta Kill, o tema é investigado sob um novo enfoque. Esse item explora, assim, as diferenças entre as iniciativas recentes focadas em “finalizar com a invisibilidade econômica da natureza” e as antigas perspectivas a reverência da sua valoração econômica. Apesar de concebida atualmente uma vez que um novo mecanismo de conservação ambiental e desenvolvimento sustentável, a valoração econômica da natureza não é novidade. Na veras, ela está inserida na lógica da aglomeração de capital presente em nossa sociedade há séculos.

Referências:

ACOSTA, Alberto; CAJAS-GUIJARRO, John. Aberraciones del capital. Wall Street líquido y sociedades sedientas. Rebelión, 17 dez. 2020. Disponível em: https://rebelion.org/aberraciones-del-capital/.

ÁLVAREZ, Clemente. O que significa a chuva debutar a ser cotizada no mercado de futuros de Wall Street?. Jornal El País, 09 dez. 2020. Disponível em: https://brasil.elpais.com/economia/2020-12-09/o-que-significa-a-agua-comecar-a-ser-cotizada-no-mercado-de-futuros-de-wall-street.html.

ARROJO-AGUDO, Pedro. A ONU denuncia que a cotação da chuva no mercado de futuros viola direitos humanos básicos. IHU – Instituto Humanitas Unisinos, 12 dez. 2020. Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/605566-e-de-todos-a-onu-denuncia-que-a-cotacao-da-agua-no-mercado-de-futuros-viola-direitos-humanos-basicos.

EL KHALILI, Amyra. O Rio São Francisco e a “cobrança pelo uso da chuva”. Disponível em: http://port.pravda.ru/sociedade/cultura/14-08-2016/41543-rio_sao_fransisco-0/. Aproximação em: 14 ago. 2016. Conquistado em: 10 mar. 2017.

EL KHALILI, Amyra. As commodities ambientais e a métrica do carbono. Disponível em: http://racismoambiental.net.br/2017/02/17/as-commodities-ambientais-e-a-metrica-do-carbono/. Aproximação em: 17 fev. 2017. Conquistado em: 17 fev. 2017.

KILL, Jutta. Valoração econômica e pagamento por serviços ambientais: reconhecimento do valor da natureza ou atribuição de preço à devastação da natureza? Disponível em: http://br.boell.org/pt-br/2017/03/03/valoracao-economica-da-natureza. Aproximação em: 02 mar. 2017. Conquistado em: 10 mar. 2017.

LUNGARZO, Carlos A. A greve de mulheres e a “novíssima esquerda”. Disponível em: http://port.pravda.ru/mundo/10-03-2017/42844-greve_mulheres-0/. Aproximação em: 08 mar. 2017. Conquistado em: 08 mar. 2017.

MANTOVANI, Emiliano Terán. El nuevo asalto al agua y las rutas del capitalismo azul. Agencia Latinoamericana de Información –ALAI, 16 dez. 2020. Disponível em: https://www.alainet.org/es/articulo/210210?utm_source=email&utm_campaign=alai-amlatina.

Natividade:

EL KHALILI, Amyra. Pós-pandemia: o que está em jogo na “economia verdejante”?. Fórum de Recta Urbano e Ambiental – FDUA, Belo Horizonte, ano 20, n. 116, p. -, mar./abr. 2021.

 

Amyra El KhaliliProfessora de Economia Socioambiental. Foi economista, com mais de duas décadas de experiência nos mercados futuros e de capitais, tendo ocupado cargos relevantes em corretoras e bancos de investimentos. Editora das redes Movimento Mulheres pela [email protected]! e Associação RECOs – Redes de Cooperação Comunitária Sem Fronteiras. Autora do e-book Commodities Ambientais em Missão de Silêncio: Novo Padrão Econômico para a América Latina e o Caribe.

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 12/05/2021

 

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