Informalidade cresce e faz tecnologia do século XXI conviver com condições de trabalho do século XIX

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RIO E SÃO PAULO – A evolução tecnológica deu impulso à geração de riquezas no planeta, ao mesmo tempo em que provocou uma revolução no mercado de trabalho. A pandemia de Covid-19 acelerou em décadas esse processo, gerando um verdadeiro tsunami no mundo do ofício, em todos os níveis de qualificação. No Brasil, isso se soma a um cenário de precarização, em que só o trabalho informal cresce.

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— Há um dilema: estamos trabalhando com tecnologia do século XXI, mas em condições de trabalho que são similares às do século XIX — afirmou ao GLOBO Vinícius Pinho, diretor regional da Organização Internacional do Trabalho (OIT) para América Latina e Caribe.

O fenômeno é global. Mas na América Latina, onde o número de desempregados ou alijados da atividade econômica atingiu 55 milhões, o impacto pode ser mais cruel. A quantidade de pessoas atuando em plataformas porquê Uber, Rappi ou iFood na região quintuplicou no ano pretérito.

Essas pessoas enfrentam maior risco de exposição ao novo coronavírus, jornadas extenuantes, falta de seguridade social e insignificante rendimento e privação de parâmetros e direitos.

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— É provável confrontar essas condições com a forma porquê se trabalhava na mineração do século XIX, quando não havia a limitação de horas de trabalho, você recebia uma miséria e ainda estava sujeito a ser contaminado por todos os agentes nocivos da mineração — disse Pinho.

Com pandemia, pedidos de ‘delivery’ cresceram e fizeram número de entregadores de apps aumentar Foto: Márcia Foletto / .

 

Esta é a verdade de Guilherme Serra, de 29 anos, que perdeu o ofício no início da pandemia. Ele viu em um aplicativo para motoristas uma oportunidade. Mas a rotina não é fácil: seu expediente costuma inaugurar às 5h e só termina por volta das 21h. Serra ainda tem de mourejar com as dificuldades de uma relação de trabalho dissemelhante:

— A gente não tem um telefone de contato direto, por exemplo. É só para quem tem uma nota e uma taxa de confirmação muito subida.

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Troca de ofício por tarefas

Para Jerry Davis, professor de Economia da Universidade de Michigan e pesquisador na Universidade de Stanford, ambas nos Estados Unidos, já se pode pensar em um horizonte no qual todo trabalhador será uma microempresa.

Isso representa a reversão de uma tendência histórica que apontava para mais direitos, maiores salários e menor trouxa horária à medida que os países enriqueciam. Agora, busca-se o menor dispêndio provável, onde quer que ele esteja, gerando um fenômeno de precarização global.

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— A Covid está sendo um sinistro para o trabalho. Para empregos de colarinho branco, o “novo normal” do trabalho remoto gera concorrentes potenciais no mercado de trabalho global. Para o trabalho que deve ser feito pessoalmente, as plataformas substituem “empregos” por “tarefas” — disse Davis.

Trabalhadores de aplicativos têm jornadas exaustivas e pouca proteção Foto: Guito Moreto / Agência O Globo
Trabalhadores de aplicativos têm jornadas exaustivas e pouca proteção Foto: Guito Moreto / Filial O Orbe

Pinho, da OIT, observa ainda que, com o home office, há o risco de as pessoas trabalharem mais tempo do que seria o ideal, em espaço físico inadequado, sem separar a vida pessoal e profissional:

— Há uma outra pandemia, uma pandemia mental e emocional. A falta de socialização de quem vive sozinho, a dificuldade em separar o trabalho do envolvente familiar e as jornadas exaustivas estão gerando um estresse pós-traumático que será pago no horizonte.

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O governo precisa adotar políticas públicas para o trabalho, tanto de valorização do salário mínimo porquê de qualificação profissional, afirma Aguinaldo Maciente, pesquisador do Ipea. Ele ressalta que, por mais que algumas empresas ou setores se esforcem, não conseguem substituir o peso do governo:

— Outrossim, é preciso produzir proteção mínima para estes trabalhadores, evitar práticas degradantes. Políticas de trabalho são fundamentais para que a recuperação da economia seja mais possante e inclusiva, e não desigual — disse Maciente, ressaltando que suas opiniões não refletem a do instituto.

Sem investir em instrução

Tanto Pinho porquê Davis defendem normas para minimizar os impactos negativos dessa revolução no mercado de trabalho. Um exemplo é a decisão do Reino Unificado que reconheceu direitos trabalhistas de um grupo de motoristas que acionou o Uber na Justiça. Nos EUA, discute-se o aumento do salário mínimo.

Rodrigo Carelli, professor da UFRJ e procurador do Trabalho, lembra que, no pretérito, o Brasil perdeu espaço para a Coreia do Sul, e agora vê o processo se repetir com a China. Em ambos os casos, não por desculpa de salários, mas pela falta de um projecto estratégico com qualificação e inovação.

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— A mão de obra chinesa já é mais rosto que no Brasil, o mesmo ocorre na Argentina. A Fábrica da Ford não saiu do Brasil somente devido ao nosso dispêndio trabalhista. Não é barateando a mão de obra que você fará uma grande pátria. Cá não temos investimento nem em instrução nem em tecnologia — disse.

Clemente Ganz, economista e assessor do Fórum das Centrais Sindicais, alerta que as mudanças no trabalho demandam uma visão global:

— O impacto disso é gigantesco.

* Colaborou Bernardo Yoneshigue, estagiário, sob a supervisão de Claudia dos Santos

 

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