Inflação amplia desigualdades do Brasil e exige respostas do governo

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Arroz foi um dos vilões da subida dos preços dos víveres em 2020. Crédito: Fernando Madeira

Quase um ano depois ingressar na pandemia do novo coronavírus, e ainda chafurdando na tragédia de uma segunda vaga, o Brasil começa a saber os impactos mais profundos e longevos da crise. Cidadãos que sofrem com o esfacelamento dos empregos e da renda têm sentido no bolso um desses efeitos, que deve perdurar por todo o ano de 2021: o aumento generalizado dos preços, que corrói o orçamento familiar e amplifica uma das maiores mazelas do país, a desigualdade social.

Víveres e bebidas responderam por quase metade da inflação de 2020. Sozinhos, os produtos comprados para consumo dentro de moradia, porquê o famigerado arroz, acumularam subida de 18,15% no ano pretérito, o maior aumento em 18 anos. Em Vitória, o dispêndio da cesta básica já representa 57% do salário mínimo, o maior percentual em uma dez. O IPCA, régua para o dispêndio de vida, teve o sexto aumento sucessivo em janeiro na Grande Vitória. Altas em habitação, eletrodomésticos e planos de saúde também incineram o orçamento doméstico. E vem mais por aí. A conta de luz pode subir, em média, 13% neste ano.

Os números traduzem-se muito concretamente no dia a dia de milhões de pessoas, para algumas muito mais do que para outras. A Pesquisa Pátrio de Modelo por Morada aponta que, na média, os 10% mais ricos perderam unicamente 3% da renda com a pandemia, enquanto os 40% mais pobres perderam 30%. Isso significa que, enquanto alguns brasileiros passam quase incólumes pela crise, estourando as vendas de setores do mercado de luxo, por exemplo, outros milhões precisam trinchar até mesmo gastos essenciais, porquê medicamentos e moradia.

Até cá, o auxílio emergencial funcionou porquê um colchão, que impediu um trambolhão ainda maior. O horizonte do mercê, no entanto, é incerto. O que se sabe é que, se trespassar, será menor do que o que vinha sendo pago até dezembro. E vem mais por pressão política do que por visão de governo. Na última sexta-feira (12), o presidente Jair Bolsonaro sugeriu que a população cobrasse a ajuda financeira de governadores, “de quem te determinou permanecer em moradia, fechou o transacção e acabou com seu tarefa”.

A inflação é fruto de um inextricável de fatores, tanto internos, quanto externos. Incluem câmbio, flutuação das commodities, aumento da exportação, fechamento de fábricas devido às restrições sanitárias. As causas têm pouco ou zero a ver com atos da governo pública. Mas porquê o Brasil vai reagir ao choque inflacionário, sim. Caso não reaja, o país pode soçobrar em um cenário de estagflação, que combina estagnação econômica, ou mesmo retração, com dispêndio de vida a galope. Um combo irremissível, que deve ser combatido com medidas para geração sustentada de renda e redução de vulnerabilidades sociais.

População e mercado estão de olho nos sinais do governo federalista para reativar a economia, mas pouco tem saído do Planalto, face à magnitude do problema. Sem definição sobre auxílio, sem programa eficiente de ajuda a micro e pequenas empresas, sem engajamento no ajuste fiscal e nas reformas estruturantes, o rumo manifesto é o aumento do desemprego e da pobreza. A vacinação em tamanho, única saída para salvar vidas e, de quebra, liberar o país para a retomada plena das atividades, também é tratada com nítida incompetência pelo Executivo — em várias cidades, as doses recebidas já acabaram.

Em um Congresso Pátrio que custa aos brasileiros mais de R$ 30 milhões por dia, é preciso um gesto simples de que a classe política está comprometida a racionar gastos públicos. Os ares parecem ter começado a mudar na semana passada. Em seguida longa negociação, a equipe econômica cedeu à cobrança por novidade rodada de auxílio, enquanto o Senado prometeu vincular o mercê a mecanismos de ajuste fiscal. Se a medida, que era a mais urgente, embora unicamente paliativa, foi costurada em ritmo tão moroso que representará um hiato de dois meses no pagamento da ajuda financeira aos mais necessitados, o prognóstico para a desenlace das necessárias reformas não é zero animador. E o Brasil tem pressa.

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