Faz dez anos que Caetano estacionou no Leblon, e com ele a curso dos paparazzi – 09/03/2021 – Ilustrada

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Há dez anos, Caetano Veloso protagonizou um momento rememorável em sua trajetória. Estacionou um sege no Leblon para ir à terapia. A cena virou notícia no portal Terreno no dia 10 de março de 2011, depois de ser capturada por Fausto Candelária, fotógrafo que tem no currículo outros flagrantes de famosos sendo gente uma vez que a gente –”Dvajan vai à doceria no Rio”, “Ivete se emociona ao ver a músico”.

O retrato escancarou as vísceras de um jornalismo de celebridades disposto a caçar cliques com o mais corriqueiro dos atos, e por isso entrou na história da internet brasileira. A cada natalício que faz, as redes sociais lançam tiradas uma vez que “feliz dia do sege estacionado no Leblon pelo Caetano!” e “vaga que Caetano estacionou no Leblon há quatro anos se diz abandonada, ‘ele me usou e me esqueceu'”.

O que estacionou, nesta última dez, foram carreiras de paparazzi uma vez que Candelária. Da Contigo! à Quem, várias publicações do ramo fecharam ou mantiveram só uma enxuta versão do dedo. O site Ego, investida do Grupo Mundo nesse filão, acabou em 2017. “Isto foi, gente”, brinca um ex-colaborador da Isto É Gente, encerrada em 2015.

A inópia da audiência por esse tipo de teor não esmoreceu, nem ele deixou de ser replicado pela internet. A diferença é que não faz mais sentido remunerar centenas, até milhares de reais por uma imagem que as próprias personalidades ofertam de perdão em seus perfis virtuais.

“Antes, existia uma demanda do público de ver celebrities e tal. Hoje, muita gente se posta. Acho que enfraqueceu a função”, diz Paula Lavigne, a companheira de Caetano. É ela quem toma a frente de compartilhar a intimidade do par, tal qual uma paparazzo autorizada do baiano.

Quando saiu, a ação leblonina do artista causou espanto por ser um “não caso” numa estação em que ainda era voga noticiar, pasme, fatos relevantes, afirma a pesquisadora Ivana Bentes, ex-diretora da Escola de Informação da Universidade Federalista do Rio de Janeiro.

“Podemos expor que a manchete era visionária, risos irônicos, pois com as redes sociais queremos não só ver o Caetano estacionando, mas Caetano de pijama, tomando Kombucha, comendo paçoca, fazendo festinha com o neto, cortando o cabelo, em momentos de intimidade e no cotidiano, tudo postado nas redes com 40 milénio, 200 milénio curtidas, no Instagram da Paula Lavigne.”

A razão de ser dos paparazzi é retratar os famosos sem pedir autorização. “Mas, hoje, são as próprias celebridades, os influenciadores, os artistas e as pessoas comuns que postam sua intimidade uma vez que valor de notícia”, afirma Bentes. “É uma vez que se a notícia tivesse mudado seu critério de relevância, para incluir o cotidiano e a privacidade.”

O stories do Instagram, rede social que era um bebê de cinco meses quando Caetano passou pelo bairro da zona sul carioca, é “lugar para o momentâneo e o ‘irrelevante’, feito para desvanecer em 24 horas”. “Caetano poderia estacionar o sege no stories sem nenhum escândalo. Ao contrário, a estacionada causaria mais engajamento, identificação, a gente até sofreria junto se ele tivesse dificuldade para encontrar uma vaga.”

Agora é a notoriedade que vira curadora da própria vida íntima. Se decoramos a coleção de pijamas (o branco com friso, o listradinho e o quadriculado) que o músico usa enquanto, sob um edredom branco, discorre sobre Chaves e Nietzsche, é porque ele —ou Lavigne— quis mostrar.

“O famoso se expõe até muito mais do que nós conseguíamos dele no pretérito. Uma foto do rosto na piscina vendia para caramba quando não tinha Instagram. Nós éramos o Instagram”, diz Marcelo Liso, de 46 anos, fotojornalista que ascendeu na Quem. Hoje, ganha a vida com uma produtora audiovisual no interno de São Paulo —está produzindo, aliás, o documentário “Aventuras de um Paparazzo Brasílio” (ele, no caso).

Os paparazzi, evidente, podem decorrer detrás de situações que um artista preferia manter secretas, uma vez que um namoro ainda não público. Mas, sem o financiamento de redações atropeladas pela concorrência das empresas de tecnologia, muitos desses profissionais se viram sem opção. “A grande maioria migrou [de negócio]. Não tem mais o que mostrar de dissemelhante para o fã do Bruno Gagliasso”, ironiza Liso.

Se a publicação com Caetano virou meme, a culpa não é dos paparazzi, porque o ofício é “jornalismo investigativo que exige investimento”, ele diz. Quando revistas e sites passaram a “só comprar ‘fotinho’ de escritório”, aí que descambou de vez. “Você publica e dá qualquer coisa na legenda.”

Em 2006, o fotojornalista conversou com nascente jornal num quadro mais amigável a seu trabalho. Ele se apresentava, com certa fanfarronice, uma vez que o rosto que foi escopo de garrafadas de um Murilo Benício irritado com o assédio, aquele que clicou Paris Hilton posteriormente um pit-stop no banheiro de um posto de gasolina. Uma notoriedade no jornalismo de celebridades.

Fazia coisa de cinco anos que revistas tinham começado a escalar fotógrafos para cuidar exclusivamente de flagras de estrelas. Uma boa história rendia murado de R$ 8 milénio. Liso conta que chegou a tirar cinco vezes isso, com uma reportagem sobre Alex, o fruto que o ex-jogador Ronaldo ainda não havia reconhecido.

Em 2021, não há quem tenha “budget”, ou orçamento, para investir nas estripulias que fazia para prometer uma foto, diz. Quando a padrão Naomi Campbell se internou no Sírio Libânes em 2008, para tratar um cisto no ovário, ele arrumou um prédio ainda não habitado e ficou três dias no topo dele, “uma vez que um sniper”, conta.

“O motorista me colocava pelo subsolo do prédio, onde alugamos vagas de garagem. Uma manadeira havia me dito que, se tivesse fotógrafos nas saídas, a top só iria embora de helicóptero. Avisei o fotógrafo mais boca tenro da concorrência, que espalhou que ela ia trespassar por uma das entradas laterais. Pronto! Eu tinha ela saindo do heliponto com exclusividade.”

Decolar na profissão não era fácil. Paparazzo na ativa desde 1987, Luiz Paulino da Silva, de 64 anos, conquistou entre colegas o sobrenome de Coruja, a ave com visão fenomenal no escuro.

Seus fotografados vão de Roberto Carlos —viajou com o cantor para Acapulco e ficou camarada dos filhos dele— a Fernanda Souza —fez o natalício de 15 anos da atriz na Disney, para a Chiques e Famosos. Experiência predileto —”uma sequência que fiz da Mara Maravilha pelada numa banheira de espuma, principalmente porque ela havia posado para a Playboy ganhando uma boa grana, e a Contigo! não pagou zero e deu fotos [seminuas] dela antes”.

Coruja não gosta desse papo de crise na espaço. É verdade que “a pandemia acabou com os eventos, e as revistas fecharam porque as empresas eram mal administradas”, afirma. “Mas fotos de paparazzi vendem no mundo todo. O público quer ver bastidores indesejados.”

Até porque os desejados, enfim, já são compartilhados pelas celebridades. Tempos estranhos em que as americanas Jessica Simpson e Khloé Kardashian são processadas por direitos autorais ao reproduzir em suas contas uma foto que paparazzi tiraram delas.

As pessoas continuam atentas, só os canais preferenciais que mudaram, diz o consultor de informação em mídias digitais Alexandre Inagaki. “O Ego cedeu lugar para perfis de Instagram e canais de YouTube especializados em fazer clipping de redes sociais. Até de gente não tão famosa assim, uma vez que o Treta News, beirando os 5 milhões de inscritos. Fala só de influenciadores digitais, os famosos que o seu pai e a sua avó não ouviram falar.”

Agora, os artistas usam suas vitrines virtuais uma vez que uma espécie de autobiografia placa branca, afirma Inagaki. Exatamente uma vez que os fãs fazem em suas microbolhas. “Cada pessoa acaba ‘bigbrotherizando’ a própria vida. Um selfie fazendo visagem no espelho rende likes. Em troca, você ganha ‘biscoitos’, tem o ego sustentado. A timeline acaba virando um BBB no qual você é o Boninho, selecionando participantes por meio do botão de follow, pay per view 24 horas por dia, e sem precisar remunerar assinatura do Globoplay.”

Paula Lavigne admite que se incomodava com a cultura paparazzo. “Vou ser sincera com você, quando ia para praia ficava muito grilada. Sempre pegavam aquela horinha em que você anda, a celulite aparece. Poxa.”

Agora, quase sempre tem as rédeas da própria imagem e da do parceiro, um dos músicos mais famosos do Brasil —que não liga para os registros que ela faz dele, Lavgine garante. “Caetano não está nem aí, Caetano é Caetano, ele não tem zero a esconder. Às vezes ele reclama quando acha que está mal-parecido.”

Num 2021 pandêmico, a cena que fez tanto sucesso há dez anos não se repetirá nos mesmos moldes –Caetano continua fazendo estudo, mas a terapia é online.

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