Exibição na TV foi presente para cinéfilos

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Foto: Divulgação/Cinearte / Pipoca Moderna

Na era que se dispôs a fazer “Paixão Estranho Paixão”, Xuxa não sabia que se tornaria apresentadora de programa infantil. Ela era namorada do Pelé, que por sua vez era camarada do produtor Aníbal Massaini Neto, e, porquê Walter Hugo Khouri era um cineasta que valorizava muito as atrizes que eram elevadas a um posto de sucesso sempre que apareciam em seus filmes, a chance de trabalhar com o cineasta parecia uma oportunidade de ouro. Mesmo sendo um filme que deu uma dor de cabeça para a futura apresentadora, que pagou US$ 60 milénio anuais à Cinearte Produções, durante os anos de 1991 a 2018, para sua interdição, não dá para negar que trata-se da obra cinematográfica mais importante e formosa que ela já fez.

Mas na filmografia de Khouri, o filme era considerado uma obra menor. Equipará-lo a outras obras do diretor é uma tarefa ingrata, pois estamos falando de alguém que fez grandes filmes através de cinco décadas. Entretanto, “Paixão Estranho Paixão” cresce na revisão permitida pelo resgate histórico no Ducto Brasil, porquê uma obra-solo, por mais que seja difícil não fazer referência a outros tantos títulos do realizador, principalmente os que apresentam o alter-ego Marcelo.

Cá o nome do protagonista não é Marcelo; é Hugo, representado pelo menino Marcelo Ribeiro e pelo idoso Walter Forster, que comparece porquê uma espécie de fantasma vindo do horizonte para relembrar o seu breve período numa mansão que funcionava porquê um prostíbulo de luxo, onde sua mãe trabalhava e morava. A mãe, vivida por Vera Fischer, chama-se Ana, nome frequentemente usado por Khouri em seus filmes estrelados pelo mulherengo Marcelo.

Vera Fischer aparece com uma formosura tão extraordinária neste filme que parece saída de alguma pintura clássica. Não à toa, a cena em que ela se relaciona intimamente com o rebento é explicitamente inspirada na Pietà de Michelangelo. O modo porquê Khouri vê os corpos femininos tem essa relação da crítica artística. Embora o libido esteja também presente, o sentido de procura da formosura clássica comparece de maneira possante. E há os close-ups dos olhares, todos poderosos. Principalmente quando vemos Ana, mas também o personagem de Tarcísio Meira, que interpreta um rico político paulista que exige exclusividade de Ana naquele bordel, e tem a intenção de ajudar a liderar a oposição a Getúlio Vargas momentos antes de o presidente instituir o Estado Novo.

Uma das coisas que mais labareda atenção no filme é seu início, quando o menino Hugo chega no prostíbulo sem saber que envolvente era aquele. Sua intenção é encontrar a mãe, que fica numa situação complicada. Por fim, porquê explicar a presença de uma párvulo em um lugar talhado a adultos? E enquanto o garoto espera e é também olhado e sitiado pelas outras jovens mulheres do bordel, ouvimos canções clássicas do cancioneiro brasiliano na voz de cantores porquê Francisco Alves e Orlando Silva. Inclusive, no final do filme, ainda ouvimos mais uma linda do Francisco Alves, chamada “Misterioso Paixão”, que brinca com o título do filme e sua temática edipiana.

Ainda que vejamos em outros filmes do realizador personagens que atravessam a puerícia e a juvenilidade tendo que mourejar com o libido, porquê em “Eros – O Deus do Paixão” (1981) e “As Feras” (1995), em nenhum outro filme de Khouri o multíplice de Édipo é tão muito explorado quanto em “Paixão Estranho Paixão”. Quando o garoto vai para seu quarto e sabe que a mãe está transado com um varão, ele chora copiosamente. O filme ganha uma dimensão onírica quando o libido inconsciente (ou talvez nem tão inconsciente assim naquele momento) se materializa na cena entre mãe e rebento.

Eis um filme que oferece tecido para manga para uma série de estudos e discussões, que vão muito além da polêmica pobre que se instalou em torno dele nesses anos todos. Além do mais, junto à direção enxurrada de classe do realizador, há ainda a música sempre luzidio de Rogério Duprat, a Traditional Jazz Band (a margem tem cenas numa sarau), a direção de retrato do rabino Antonio Meliande, um elenco de suporte de primeira risco – Mauro Mendonça e Otávio Augusto, as jovens Vanessa Alves, Sandra Graffi e principalmente Matilde Mastrangi, rainha do cinema erótico brasiliano, que comparece em uma cena pra lá de inspirada.

Por tudo isso, a exibição do filme no Ducto Brasil com um upgrade na imagem e no som na última quinta-feira (11/2) foi um presente para os cinéfilos e para os apreciadores da obra do diretor.

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Pipoca Moderna
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