Estamos sob um governo militar, e essa não é uma boa notícia – 23/02/2021

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[RESUMO] É hora de dar às coisas os nomes que elas têm: passada a ilusão de que o governo Bolsonaro seria um fusão de Forças Armadas, liberais e militantes anticorrupção, é seguro proferir que estamos sob gestão militar. Bastaram pouco mais de dois anos para enterrar a farsa da “capacidade técnica” dos quadros, de quem fracasso é evidente em diversas áreas e dramático na saúde. Fragilizado, o governo militar enfrenta desafios tanto na estádio parlamentar quanto eleitoral para manter chances em 2022.

* Vitor Marchetti

A equação do atual governo militar brasílico não é simples, e somada a baixa qualidade de seus quadros fica ainda pior. E digo governo militar, pois precisamos estrear a dar os nomes para as coisas porquê elas são. Não possuímos um governo militar aos moldes de 1964, mas temos um governo militar sob um presidente eleito em circunstâncias e lance que ainda precisam ser mais muito exploradas em nossas análises, apesar de as pistas serem cada vez mais evidentes, porquê a do recente livro do general Villas Bôas.

De qualquer modo, feita a reparo inicial, vamos aos seus desafios. Para fidelizar eleitores rumo a 2022, Bolsonaro precisa agir em duas frentes:

1) produzir políticas de distribuição de renda para uma enorme parcela da população cada vez mais empobrecida e sem perspectiva de trabalho e renda. É o sufragista por pragmatismo. Adere ao governo que impacta positivamente em sua veras mais imediata.

2) manter a alvoroço de uma base mais dispersa nas classes sociais, mas que se mobiliza por causas conservadoras. Esse é o sufragista por crença. Suas demandas por entregas concretas pode estar focada em políticas concretas, porquê os decretos das armas, ou exclusivamente na construção de discursos, porquê é o caso da agenda antiglobalista que nos legou um dos piores desempenhos entre governos na pandemia.

Para tanto, o governo precisa agir em duas arenas. Na estádio parlamentar:

1) a agenda de distribuição de renda atende os interesses do Centrão, que precisa dessas políticas para capitalizar nas eleições de 22. Mas não é só de auxílio emergencial que sobrevive o Centrão. Demandará também uma agenda mais participativa e proativa do Estado.

2) todavia, apesar de boa segmento desta base ser adepta à agenda dos costumes, seus atores são pragmáticos, e o seu limite é a instabilidade que essa agenda pode produzir nas relações entre os poderes e na sociedade. Sabem que ganham mais politicamente implementando uma agenda do que viralizando no Twitter.

Já na estádio eleitoral:

1) para manter a capacidade de produzir políticas que atendam o Centrão, Bolsonaro terá de impor fortes limites à agenda liberal. Exemplos disso são o recuo da renovação do Banco do Brasil (o fechamento de agências não agradava os deputados do Centrão) e a mediação na Petrobras para controlar os preços dos combustíveis.

2) será preciso estabelecer um limite difícil entre manter essa base ativa e conseguir moderá-la quando for necessário. Se errar a mão em obséquio da alvoroço, o governo poderá se isolar de atores políticos e econômicos importantes; já errar a mão para a moderação tende a produzir uma sensação de desleixo do governo. Uma vez que alguns já veem a destituição de Weintraub, o isolamento de Sara Winter e a prisão de Daniel Silveira.

O governo militar já perdeu as classes médias urbanas ao enterrar a agenda lavajatista e pelo sinistro na transporte da pandemia, que tem na morosidade da vacinação exclusivamente uma de suas facetas. Perderá a base popular se não validar uma renda emergencial e colocar o Estado porquê mediador das demandas econômicas e sociais. Uma vez que diz o novo ditado: “quem lacra não lucra”. Nesse caso, quem fala muito, mas não entrega política concreta, não fatura politicamente.

Bolsonaro perderá o topo da pirâmide se não proceder na agenda liberal. Os superministros já foram para o espaço. Ou melhor, já ficaram do tamanho do ministro que veio do espaço. A depender dos movimentos dos próximos meses, não haverá mais um Paulo Guedes no governo para justificar a adesão dos setores econômicos a uma gestão tão desastrada.

A equação não é simples. E é ainda pior pela baixa capacidade de recrutamento de gestores por segmento do governo. E isso ocorre por duas razões. Primeiro, porque as suas marcas negativas já estão tão evidentes que o potencial recrutado coloca na balança de custos e benefícios o risco de perder sua credibilidade porquê capital político. É preciso topar participar daquele tipo de reunião ministerial, para estrear. Segundo, e me parece o mais importante, é que um governo militar é ainda mais corporativista e fechado do que qualquer outro perfil social que ocupasse a presidência da República. Não fosse assim, teríamos pretérito os últimos anos governados exclusivamente por sociólogos e metalúrgicos sindicalizados.

Ocorre, porém, que em um governo militar estamos fadados a sermos governados exclusivamente por militares. E se isso fosse dito há dez anos talvez houvesse alguém a ver alguma coisa de positivo na capacidade técnica desses quadros. Mas hoje, infelizmente, está desnudada a farsa. Os mestres em logística mostraram que não conseguem conceber sequer um planejamento de gestão de seringas, quanto mais de vacinas.

Em resumo, o esteio ao governo militar depende da equalização de variáveis contraditórias entre si. Isso torna a tarefa impossível? Evidente que não, mas exigirá enorme capacidade de gestão. Seja para manter a base política na estádio parlamentar, seja para manter esteio na estádio eleitoral. Ocorre que essa capacidade de gestão e recrutamento de bons quadros está, digamos, deixando exclusivamente os militares felizes demais.

* Vitor Marchetti é pesquisador político e professor do Bacharelado e da Pós-graduação em Políticas Públicas da Universidade Federalista do ABC (UFABC)

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