Erasmo Carlos chega aos 80 anos com a certeza: ‘Paladar do que eu faço’ Erasmo Carlos chega aos 80 anos com a certeza: ‘Paladar do que eu faço’ | Celebridades

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Rio – Na letra da música Sou uma Moço, Não Entendo Zero, parceria de Erasmo Carlos com o camarada de fé Roberto Carlos, lançada em 1974, Erasmo canta que, apesar de um varão feito, diante dos problemas da vida, e ao contrário do que todos esperavam dele, não entendia zero. Três dias antes de chegar aos 80 anos, completados neste sábado, 5, em conversa com a reportagem do Estadão, ele confessa: “Hoje entendo menos ainda, bicho”.

Esse inconformismo, na verdade, é o que leva Erasmo para frente, desde que ele, morador da Tijuca, na zona setentrião do Rio de Janeiro, ouvia nomes uma vez que Cauby Peixoto, Angela Maria e Dorival Caymmi cantando na Rádio Pátrio. Depois, veio o rock’n’roll e a bossa novidade. A vontade do garoto pobre era ser um desses ídolos. Conseguiu.

“Com 80, podia estar jogando cartas com os aposentados na praia. Não. Estou cá trabalhando. Paladar do que eu faço. Quis a vida que eu fosse um compositor, que eu aprendesse alguns acordes que me permitissem fazer minhas músicas…O resto é minha imaginação que faz”, diz.

Entre as novas canções, há pelo menos duas. Uma é em parceria com o rapper Emicida, feita para o novo disco da cantora Alaíde Costa. Outra é assinada com Supla, o rock Brothers Again, feita para a volta do Brothers of Brazil, projeto que o roqueiro paulistano tem com o irmão, João Suplicy.

Uma das comemorações dessas oito décadas será o documentário que a Globoplay vai estrear até o final deste mês. Produzido pela a equipe do programa Conversa com Bial – a mesma da série Em Nome de Deus, sobre o médium João de Deus, e do documentário Arnaldo, Sessenta, sobre o músico Arnaldo Antunes -, Erasmo 80 trará entrevistas, números musicais e imagens raras.

“Descobrimos duas películas. Uma é uma reportagem do Jornal Hoje de 1977 feita pelo Nelson Motta que traz imagens de um show que Erasmo fez no MAM com a margem A Bolha. A outra traz Erasmo falando de Anistia e talvez seja o único registro em vídeo dele cantando Quero Voltar (marchinha engajada de 1979). Também exibimos para ele alguns trechos da Jovem Guarda que ele nunca tinha visto. E o Erasmo se emocionou ao ver a participação dele no comício da Candelária pelas Diretas. Foi lindo”, conta Renato Terreno, que assina o roteiro.

Gravado em uma morada na Joatinga, no Rio, que pertenceu ao arquiteto Zanine Caldas, o documentário pretende explorar a tempo mais introspectiva de Erasmo, trazida pela urgência do isolamento social. “Essa morada é sólida, rústica, simples, única, atemporal, e se abre para uma venustidade que você não vê nos cartões-postais cariocas. Erasmo tem um pouco desses adjetivos”, diz o diretor Gian Carlo Bellotti. Nas filmagens, Erasmo fez alguns números musicais, uma vez que Gente Ocasião, Sarau de Arromba e É Preciso Saber Viver.

A diretora Sandra Werneck, de Cazuza – O Tempo Não Para e Pequeno Léxico Amoroso – também prepara um documentário sobre Erasmo, com exibição prevista para o segundo semestre de 2022, no Via Curta. O projeto foi autenticado na Ancine em 2018 e aguarda a liberação de verba.

“Quero caminhar com Erasmo pelas ruas da Tijuca. Será uma viagem músico por sua biografia, guiada pelo meu olhar, um olhar feminino. Vou abordar também as mulheres que cantaram suas músicas e trabalharam com ele. Será uma celebração de sua vida, de um artista que mais encarnou o espírito rebelde do rock no Brasil”, diz Sandra.

No mais, Erasmo anda ansioso para que os shows voltem, quando as condições sanitárias permitirem, para que ele bote no palco a novidade turnê que planejou. O projeto chama-se O Porvir Pertence à Jovem Guarda, frase do político russo Lenin, que também inspirou o nome do movimento ocorrido nos anos 1960.

No show, sucessos do iê-iê-iê que Erasmo nunca cantou antes. Entre eles, Coração de Papel, sucesso de Sérgio Reis; Esqueça, hit de Roberto Carlos; O Bom, de Eduardo Araújo; e Devolva-me, sucesso de Leno e Lilian. “Adoro estrada, viajar de ônibus com a margem, saber as pessoas pelas cidades, parar para manducar churrasco. Essa é minha vida”, diz.

Playlists

Erasmo conta que adquiriu um novo hobby nesse pausa forçado dos palcos: produzir playlists de músicas para ouvir. Uma delas já tem mais de 600 músicas, segundo ele. Sem referir nomes, diz que seleciona canções dos anos 1950, rock e atualidades. “Ouço, pranto. As melodias e a simetria me fazem chorar. Hoje em dia, a melodia e as letras muito feitas morreram.”

Ouvir – e fazer – música é um contraveneno que o compositor usa para olvidar aspectos da vida atual que o afetam e impedem que ele seja plenamente feliz. “Não era esse o mundo que eu imaginava nos anos 1970. Estou desesperançado com o ódio, o egoísmo e o individualismo das pessoas. Essas coisas são do mal. Fica uma atmosfera pesada, um progresso desordenado sem término. A Terreno é nossa morada. Precisamos cuidar melhor dela. Mas ainda acredito na humanidade, nas pessoas”, diz.

Erasmo não cita a dezena de 1970 à toa. Foi nesse período, em seguida o sucesso da Jovem Guarda, que ele, buscando novos caminhos musicais, sem não perder o rock’n’roll de vista, e para além do fortalecimento da parceria com Roberto, amadureceu os temas abordados em suas canções, voltando o olhar para questões mais existenciais e a filosofia que ele carrega até hoje: partilhar paixão.

Um dos símbolos dessa tempo é o álbum Carlos, Erasmo, que chega aos 50 anos agora em 2021 – e se tornou um dos mais cultuados de sua curso. “Foi alguma coisa originário. Parei de tomar e virei outro varão. Saí do bê-á-bá da Jovem Guarda e fui para a faculdade”, diz, de maneira franca.

O compositor, porém, revela que seu disco preposto é o anterior a Carlos, Erasmo, chamado Erasmo Carlos e Os Tremendões, que tem músicas uma vez que Sentado À Cercadura do Caminho, Vou Permanecer Nu Para Invocar Sua Atenção, Coqueiro Verdejante (todas com Roberto), Saudosismo, de Caetano Veloso, e Aquarela do Brasil, de Ary Barroso. “Foi meu vestibular para essa novidade tempo. Estava tudo na minha frente. Era só alcançar”, diz.

Para o pesquisador e produtor músico Marcelo Froes, que nos anos 2000 fez dois boxes com os álbuns dos anos 1960, 1970 e 1980 do compositor, Erasmo tem uma obra totalmente congruente com o que sempre representou musicalmente. “Nunca pisou na esfera. Não há zero que o desabone. Não se rendeu a modismos. A sentimento que eu tenho é que ele sempre teve liberdade para fazer seus álbuns. Se não a tivesse, não fazia”, diz Froes, responsável do livro Jovem Guarda Em Ritmo de Proeza.

Saúde

Recentemente, Erasmo anunciou que, há quatro anos, em um revista de rotina, descobriu um cancro no fígado. O compositor, que nos próximos dias fará novos exames para confirmar se está de traje curado da doença, uma vez que os últimos prognósticos mostram, diz que quer invocar a atenção para o tratamento que realizou em um hospital no Rio de Janeiro. Erasmo foi submetido a amputação percutânea, na qual uma sonda emite virilidade térmica para destruir os tumores. Ele não precisou fazer quimio ou radioterapia.

Esse é o segundo cancro que o artista enfrentou. Há vinte anos a doença apareceu na goela. “Me cerquei da minha mulher e dos meus filhos. Minha boa fé também me ajudou. Não sou um ser peculiar. Sou igual a todas as pessoas. Quando alguma coisa assim vem, não tem que fugir. Só enfrentar”, diz, sobre o período complicado que passou.

Fazendo jus ao sobrenome de Gigante Gentil que ganhou dos colegas – a reputação de mau não passava de uma estratégia nos tempos da Jovem Guarda – Erasmo lembra-se de Wanderléa, amiga de uma vida toda, com quem já dividiu muito o palco, que também aniversaria neste sábado. “Um paixão de pessoa. Ela se preocupa comigo, manda recadinhos, quer saber da minha saúde. É uma querida. Minha irmãzinha”, diz, sobre a cantora que completa 77 anos.

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