Clodovil ‘ressuscita’ na pele de Eduardo Martini e impressiona público · Notícias da TV

0
66

Clodovil ressuscitou e está de volta. Não se trata de um milagre da vida real, mas daqueles feitos pela magia do teatro. Na pele do talentoso ator Eduardo Martini, o polêmico personagem da tendência e da televisão domina a peça Simplesmente Clô, aos sábados, 21h, e domingos, 19h, no Teatro União Cultural, em São Paulo.

Do tipo “ame-o ou deixe-o”, Clodovil Hernandes (1937-2009) cravou sua inconfundível marca não só na TV, uma vez que na sociedade brasileira. Proprietário de opiniões fortes, era do tipo que não podia ser ignorado. Até porque ele próprio não permitia não que isso acontecesse.

Ao mesmo tempo em que era declaradamente gay em um tempo no qual esse tema era tabu, também esbravejava em seu programa opiniões conservadoras, fazendo dessa incoerência um atrativo a mais para o público, sempre ávido por polêmicas.

Clodovil foi um gay que, para ser aceito por uma escol conservadora que comprava seus famosos vestidos, repetia ele mesmo os preconceitos dessa classe contra a própria exigência de homossexual, fazendo suas palavras serem aplaudidas por um tipo de pessoa que o condenaria caso ele não fosse famoso, rico e poderoso.

Ridicularizado por ser gay

Porém, nem por isso Clodovil era salvo de ser estereotipado e até mesmo ridicularizado diante do público. É verosímil ver até hoje nos arquivos do YouTube seu desconforto ao ser vítima de piada homofóbica de Sérgio Mallandro no Programa Silvio Santos.

Ou a perseguição bravio que o programa Pânico fez com ele no quadro Sandálias da Humildade, ridicularizando sua imagem junto ao público jovem que acompanhava o humorístico.

Entretanto, Clodovil também adorava humilhar as pessoas na TV, fazendo perguntas desconcertantes que expunham propositadamente a ignorância de seus entrevistados. Os famosos tinham pavor de ir ao seu programa. Só iam porque ele tinha ibope cativo.

Talvez estar sempre em posição de ataque fosse uma maneira de Clodovil se proteger de um mundo que costumava ser cruel com um gay de sucesso. Ele sabia que incomodava muita gente. E gostava disso.

É preciso ressaltar que o comportamento de Clodovil precisa ser visto dentro do tempo em que viveu. Boa secção da atual comunidade LGBTQ+ adora condená-lo ao lume do inferno eterno, mas se esquece de que boa secção da curso do estilista-apresentador foi construída durante o conservadorismo da Ditadura Militar (1964-1985).

Quando veio a Novidade República, esse conservadorismo já estava tão enraizado dentro dele que não o permitiu proceder o pensamento com os novos tempos.

Morte misteriosa

Carisma nunca faltou a Clodovil. Tanto que, quando resolveu candidatar-se a deputado federalista, foi o terceiro mais votado de São Paulo, com 493 milénio votos, detrás exclusivamente de Paulo Maluf e Celso Russomano no pleito de 2006.

Ele só não sabia que trocar o mundo do entretenimento pelo da política também significaria seu termo. Clodovil morreu em Brasília, e até hoje sua morte é envolta em mistério e especulações de que teria sido assassinado, uma vez que cravou sua ex-cozinheira Renata Cândido Rodrigues a Geraldo Luís, no Balanço Universal da Record em 2019.

Ator merece prêmio

Mas voltemos ao teatro. A peça Simplesmente Clô, escrita por Bruno Cavalcanti e dirigida por Viviane Alfano em parceria com o próprio Eduardo Martini, procura justamente, uma vez que diz seu título, esquadrinhar o varão Clodovil e seus pensamentos sobre sua trajetória de vida, repleta de altos e baixos e de muitos desafetos.

Mais do que a polêmica que sempre dominou as manchetes sobre Clodovil, desde os tempos em que rivalizava com o estilista Dener Pamplona (1937-1978) e depois com as colegas de TV Mulher (1980-1986) na Mundo, Marta Suplicy e Marília Gabriela, o que interessa na peça é o varão por trás da notabilidade. Levante é o grande valor do espetáculo: fugir do óbvio sobre Clodovil.

Eduardo Martini assombra o público com uma caracterização impressionante. Na pele do estilista, demonstra ser um dos atores mais intuitivos de sua geração. De tão verossímil, assombra o modo uma vez que fala e gesticula o artista, em uma metralhadora de frases nas quais sobram palavras. Por fim, Clodovil sempre tinha muito a proferir sobre tudo. As suas famosas “verdades”.

Uma vez que Clodovil, Eduardo Martini celebra em grande estilo seus 60 anos de vida, resistindo ousadamente no teatro em tempos de pandemia. Seu trabalho é digno de ser premiado. No palco, conta com a cumplicidade não só do público que lhe é leal uma vez que também do público saudoso em rever Clodovil, cuja morte fará 12 anos em 17 de março próximo.

Na sessão vista por oriente crítico, havia até mesmo uma comboio de senhorinhas que viajaram, mascaradas, de Santos a São Paulo exclusivamente para ver ao espetáculo. Ao termo, aplaudiram de pé, emocionadas por reencontrar no palco um velho espargido da TV.

É bom salientar que a montagem segue todos os protocolos sanitários previstos pelo Projecto São Paulo em virtude da pandemia de Covid-19, respeitando o distanciamento do público na sala teatral com capacidade reduzida, uso obrigatório de máscara por todos e muito álcool em gel no hall do charmoso Teatro União Cultural.

Em tempo: no mesmo teatro, às sextas, às 21h, o incansável Eduardo Martini pode ser visto também uma vez que outra personagem famosa da TV, a divertida Neide Boa Sorte, mulher rica e sem papas na língua que durante anos foi seu quadro de humor no programa de Hebe Camargo no SBT.

Dito tudo isso, oriente crítico indica: chame aquela pessoa que não suporta mais estar confinada, ponham suas máscaras, lambuzem as mãos com álcool em gel e corram para o teatro para conferir o trabalho deste grande ator do teatro brasílico chamado Eduardo Martini.

De onde estiver, Clodovil deve estar feliz por ser lembrado neste país sem memória. Por fim, o que ele adorava mesmo era estar na boca do povo.

Simplesmente Clô
Avaliação: otimo 
Quando: sábado, 21h, domingo, 19h. 60 min. 12 anos.
Onde: Teatro União Cultural (rua Mário Amaral, 209, Paraíso, Metrô Brigadeiro, São Paulo, SP. Tel. 11 3885-2242).
Quanto: R$ 35 e R$ 70 na Sympla


Levante texto é argumentativo e não expressa necessariamente a opinião do Notícias da TV

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui