Caminhoneiros se recuperam de Covid na cabine do veículo e pressionam governo por vacina

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Foto: Danilo Verpa/Folhapress
Categoria foi inserida na lista de prioridades, mas reclama não ter previsão para imunização 17 de maio de 2021 | 07:00

Caminhoneiros se recuperam de Covid na cabine do veículo e pressionam governo por vacina

Apesar de terem sido incluídos na lista de prioridades do Projecto Vernáculo de Imunização, os caminhoneiros ainda não têm previsão de quando começarão a ser vacinados contra a Covid e, por isso, pressionam o governo. O Ministério da Saúde estima em mais de 1,2 milhão o número de caminhoneiros em todo o Brasil.

Uma vez que eles vivem rodando pelo país, muitas vezes descobrem na estrada, longe de mansão, que contraíram o coronavírus. Uma vez que não podem se hospedar em hotéis de rodovia, seja por estarem doentes, seja por não terem quantia, acabam tendo que executar a quarentena na cabine do caminhão.

Em julho do ano pretérito, Jeferson Belomi, 53, descarregava seu caminhão em Vila Rica (MT), a 1.796 quilômetros de Bela Vista do Paraíso (PR), onde mora. Ele disse que, terminado o serviço, foi dormir, e acordou mal.

“Cheguei de arrasto no hospital. Estava com 39 graus de febre, a pressão subida. A médica tirou radiografia do pulmão, estava todo sujo. Pediu exames de sangue, deu remédio para decrescer febre e disse que ia me internar”, disse Belomi à Folha.

O examinação de Covid ainda demoraria a ser feito porque o material para coleta tinha que ser solicitado em Cuiabá (MT), a 1.117 km de lá.

Os primeiros resultados dos testes realizados no hospital indicaram uma infeção urinária, mas depois veio também a confirmação de que o caminhoneiro havia contraído o coronavírus.

Belomi disse ter ficado 15 dias internado, mas ainda estava fraco para enfrentar as mais de 24 horas de estrada para mansão. Sem poder continuar no hospital até se restabelecer completamente, foi para a cidade vizinha de Confresa (MT), a pouco mais de uma hora de intervalo.

Foram três dias morando na cabine de seu caminhão, reclinado em um posto de gasolina. Mesmo sabendo que estava curado, o caminhoneiro e seus colegas ficaram receosos. Conversavam usando máscara, de longe, embora os parceiros sempre fossem até a cabine levar quentinhas para ele. Belomi só deixava o veículo para tomar banho nas instalações do posto.

“Eu estava sem condições de ir embora. [Estava a] 1.800 km da minha cidade. Meu caminhão é velho. Se colocasse uma outra pessoa que não tivesse noção de tocar devagarzinho, ele quebrava, porque é fraco. Outrossim, eu estava sem óleo, sem quantia, estava fraco. Nem caminhar recta eu conseguia.”

Com a ajuda de colegas, carregou o caminhão e, lentamente, voltou para mansão, em mais três dias de viagem. Apesar de ter chegado a Bela Vista do Paraíso em uma manhã de domingo, só teve coragem de voltar para mansão na tarde de segunda, depois que o resultado de um novo teste de Covid saiu, garantindo que ele não era uma ameaço para a saúde de seus parentes. Mesmo assim, disse que procurava permanecer de máscara e ausente.

O caminhoneiro conta que outros colegas seus não tiveram a mesma sorte com a Covid.

“Já presenciei muita gente com sintomas. Um morreu, outros a família teve que buscar. Perdi muito camarada meu”, relatou.

Ele conversou com a Folha, por telefone, no início da tarde de quarta-feira (12), no pausa de um carregamento de soja em Primeiro de Maio (PR), prestes a viajar para Londrina, a 63 km dali.

“Tem uns 50 caminhões cá. Carregar caminhão é uma vez que estar num dança, numa sarau. Sempre fico reservado. Tem dois caras com suspeita [de Covid], que iam fazer examinação hoje. Às vezes a pessoa está simples, e está passando [a doença] para o outro”, afirmou.​

A CNTA (Confederação Vernáculo dos Transportadores Autônomos) enviou um ofício ao Ministério da Saúde em 5 de abril solicitando que “com a maior brevidade provável, seja definido o cronograma de imunização contra a Covid-19 dos transportadores rodoviários autônomos de cargas, em consequência, todos os profissionais do setor de transporte de cargas”.

No término de janeiro, com ameaças pontuais de greve dos caminhoneiros, o governo federalista cedeu a uma série de itens da tarifa de reivindicações dos profissionais de transporte.

Uma das promessas foi a inclusão da categoria na lista de grupos prioritários de vacinação contra a Covid-19, o que de vestuário aconteceu, embora, sem previsão de data para início da imunização.

Os caminhoneiros são um dos 29 grupos prioritários, que totalizam 77,3 milhões de pessoas.​ Estão na lista também grupos por tira etária, pessoas com comorbidades, indígenas, ribeirinhos e quilombolas, pessoas em situação de rua e em privação de liberdade, por exemplo.

“Já passou da hora. Toda a humanidade está envolvida nisso, mas, nesta questão de serviços essenciais, estamos fazendo levante contraponto [de não ter parado durante a pandemia]. Precisamos ter uma contrapartida. O governo tem que, além de reconhecer a prestígio da categoria, agora, dar uma prova disso trazendo um mercê para os caminhoneiros, que é, no mínimo, a vacinação”, disse Marlon Maues, assessor-executivo da CNTA.

Para Maues, além da falta de previsão para a vacinação, os caminhoneiros nunca foram contemplados com um protocolo de atendimento para casos uma vez que o de Jeferson Belomi, quando a contaminação acontece longe de mansão.

“O que nos deixa impotentes é que não há uma movimentação coordenada nem no tratamento nem na vacinação nem na informação. Foram feitos paliativos: distribuição de álcool em gel, máscaras e marmitas. O caminhoneiro autônomo precisa não somente ter prioridade, mas antecipar a prioridade”, disse o representante da categoria.

Segundo Maues, não é provável saber quantos caminhoneiros foram infectados nem a quantidade de mortes, porque a segmentação profissional não é registrada no momento do óbito.

Ele afirmou que não há qualquer previsão de paralisação da categoria no momento e que isso seria “um último recurso”.

Caminhoneiros de diversos estados estiveram no sábado (15) em Brasília, mas não para cobrar a atenção do governo. Participaram de uma sintoma em prol do presidente Jair Bolsonaro na Esplanada dos Ministérios.

​O Ministério da Saúde informou que trabalha para ofertar a vacina de Covid-19 a toda a população brasileira, a depender da produção e disponibilização das vacinas.

De convénio com a pasta, à medida que a vacinação avança nos estados, mais grupos do Projecto Vernáculo de Imunização vão sendo contemplados, mas é difícil prever uma data.

“Neste momento, é extremamente necessário o seguimento das prioridades elencadas”, informou o ministério em nota.

“Vale ressaltar que estados e municípios podem ampliar a imunização dos grupos prioritários de convénio com a verdade de cada região”.

Daniel Roble / Folha de São Paulo

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